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Nada como ir à uma Megastore ou a Siciliano e ficar lá parasitando, lendo livros de graça e tomando um capuccino. Quando vou a uma livraria pareço uma criança de grandes olhos que acabou de ganhar um pirulito. Fico lá sentada, e esqueço da música eletrônica idiota da loja, das pesoas ao meu lado e fico sentada, lembrando de comer alguma coisa de vez em quando.
Outro dia enquanto fuçava os livros da Megastore, encontrei uma revista com o psicodélico nome de Ácaro. Normalmente as pessoas não abririam uma revista cuja capa há um boi pastando, mas eu não sou uma pessoa exatamente normal. Abri e simplesmente adorei. A revista possui vários textinhos legais, e me peguei sonhando novamente em ser jornalista. Olha só o editorial:
"Esse filme aí não presta, viu? Quer dizer: também não quero influenciar o seu juízo. Faça como quer, imagino que pareça estranho eu dizendo essas coisas porque afinal de contas eu também estou aqui, sentado, esperando a projeção começar. Mas só assisto porque trabalho ali, do outro lado da rua, e chega uma hora que cansa essa história de ficar olhando o movimento, um ônibus, dois ônibus, um bêbado, a meninha com o cachorro. O senhor pode dizer que nunca é igual, a menininha não é a mesma, ou se for vai ser o laço do cabelo que é de outra cor, o cachorro que tem um fedor diferente, a mãe que desta vez vem do lado apertando a mão da menininha com uma força que só falta a coitada começar a chorar. Eu não vou discutir, mas comigo é assim: sempre a mesma coisa. Outro dia uma perua sem freio veio descendo a ladeira, raspando nos carros, chegou na curva ali embaixo e bum, entrou na loja dos chineses, levou vitrine, chineses, loja, tudo. O senhor vai dizer: deu uma variada. Pode ser - mas no fundo nada muda, é reprise, como se eu já tivesse imaginado. Não falam que tudo está escrito? Esse filme aí não presta, mas é o que dá pra fazer. Eu fico ali, canso, então tenho que me levantar, chegar na porta, conversar com o bilheteiro. Mas o bilheteiro fala sempre as mesmas coisas, a mulher dele que tem uma espécie de câncer, a filha que não quer estudar, o cunhado que sofreu um acidente, e agora vive como um legume. Eu olho no olho mas penso em outras coisas, a voz mecânica que fica respondendo, pois é, ahã, você tem razão. Então canso, bocejo, ele pergunta se eu não quero entrar. Eu já vi esse filme dezessete vezes. Entro, escolho um lugar diferente, estico as pernas, espero a sessão. Gosto dessa hora, a sala vazia, essa luz baixa que parece de vela, a tela que fica ali, paradinha, como se preparasse um susto. Já vi esse filme dezessete vezes, o senhor imagina o que é está sentado lá fora. O bêbado. A menininha. O cachorro que levanta a perna e sorri, aquela satisfação horrorosa de cachorro urinando...Ah, olha só, ficou escuro, já vai começar. Esse filme aí não presta, viu? Mas pode ficar tranquilo: eu aviso o senhor na hora de fechar os olhos."
Esse filme, Chico Mattoso, Revista Ácaro


amei o texto; espero que eu tenha entendido direito. =Z eu sou meio lerda XD
Ácaro? que nome mais estranho! sobre o que é a revista, agricultura? bom, tem um boi pastando na capa. =/